Temos bons professores

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A recente divulgação dos resultados da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) desembargou um aluvião de reproches à inteligência dos professores portugueses. A direita, rosnenta perene da educação, lambeu os beiços: tinha por fim o seu libelo de sangue contra os professores. Diligentemente, nomes costumeiros como Henrique Monteiro, do Expresso e Alexandre Homem Cristo, do Observador, perfilaram as penas cediças para o insulto: os professores são estúpidos, privilegiados, ignorantes e pior ainda, vêm de famílias pobres. Mas um pouco por toda a comunicação social, o ataque aos professores estabeleceu-se como atestado de inteligência, uma espécie de catarse pública para expurgar as entranhadas ignorâncias particulares.

E como em todo o auto-de-fé, a primeira vítima é sempre a inteligência. Não a inteligência dos que acusam, porque não é preciso passar nenhuma prova de conhecimentos para ser colunista de pasquim, mas a inteligência da acusação. Foi o insuspeito Instituto da Avaliação Educativa que enterrou a PACC, considerando-a descontextualizada, inconsistente e contraditória. Para o IAVE a prova que avalia se os professores que já deram todas as provas que tinham a dar, não tem critérios objetivos e carece de autenticidade. Numa palavra: a prova vive de rasteiras de concurso de televisão, jogos de lógica bizantina e perguntas dúbias sobre “cultura”. Tudo menos o essencial: saber ensinar.

Quando, em 1936, o fascista José Millan Astray deu uma descompostura pública ao professor Miguel de Unamuno, terminou a peroração com esta frase: “Morra a inteligência e viva a morte!”
Mas não nos equivoquemos, não por estar muito preocupada com os erros ortográficos que PACC não se debruça uma única vez sobre pedagogia e didáctica. O que este governo detesta não são os erros dos professores, são as suas qualidades: a capacidade de fazer pensar e de, mesmo nas mais difíceis condições, transformar burros de carga em cidadãos.

A um governo que fecha as escolas, elitiza o ensino e obriga as crianças a passar fome tanto lhe dá que os professores saibam ensinar, porque, na verdade, não precisa de professores, mas de “formadores”: profissionais inteligentes, de raciocínio rápido, pagos para ensinar, com correção e polidez, a martelar ou a contar, e que no fim lambam a lambam do dono. O que o governo e os seus capangas na imprensa abominam é a dedicação e preparação dos professores portugueses para transmitir os valores de Abril às gerações vindouras. Queriam que a escola fosse para aprender a ler, a escrever e a ter medo.

Quando Alexandre Homem Cristo e os seus correligionários dizem que “temos” maus professores, estão obviamente a falar dos seus. O que eu lamento, mas confirmo: o colunista do Observador aprendeu com os piores professores portugueses: Salazar e Caetano.

Quando, em 1936, o fascista José Millan Astray deu uma descompostura pública ao professor Miguel de Unamuno, terminou a peroração com esta frase: “Morra a inteligência e viva a morte!”. Os que hoje insultam e humilham a classe docente gritam o mesmo. Defendem um retorno ao obscurantismo das avaliações misteriosas, por critérios apócrifos e avaliadores anónimos. Os que chamam estúpidos aos professores queriam repetir o florão de Astray “Morra a inteligência”, mas primeiro há que gritar “Morram os professores”.

13 comentários:

  1. Um muito excelente texto.

    -Os que chamam estúpidos aos professores queriam repetir o florão de Astray “Morra a inteligência”, mas primeiro há que gritar “Morram os professores”.

    A justeza desta frase é um indicador dos tempos em que vivemos e de quem temos que enfrentar.

    De

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  2. (Bolas, eu já tinha escrito!): A corrente dominante desde há uns anos (e não só em Portugal) sobre Educação é assumida por quem não sabe de Pedagogia, não quer saber e tem raiva a quem sabe. E chegámos a este estado: professores seleccionados (e banidos) por uma estúpida prova.

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  3. Fantástica apologia do 'já deram as provas que tinham a dar' nessa bovina paixão de resolver a vida de uma vez por todas, força motora de toda a apologia da mediocridade. Tudo o mais é 'descontextualizada, inconsistente e contraditória' com a cultura abrilesca do tudo a todos porque sim!

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  4. ORGANIZE-SE UMA GRANDE MANIFESTAÇÃO DE INDIGNAÇÃO...

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    1. VAMOS FAZER CAIR ESTE MINISTRO QUE MAIS UMA VEZ MALTRATOU OS PROFESSORES...

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  5. " "Ensinar o povo português a ler e escrever, para tomar conhecimento das doutrinas corrosivas de panfletários sem escrúpulos ou das facécias malcheirosas que no seu beco escuro vomita todos os dias qualquer garoto da vida airada, ou das mentiras criminosas dos foliculários políticos - é inadmissível. Logo, concluo eu: para a péssima educação que possui e para a natureza de instrução que lhe vão dar, o povo português já sabe de mais (…) Um dos factores principais da criminalidade é a instrução". Assim escreve no jornal "A Voz", em 1932 alfredo pimenta, salazarista dos quatro custados.

    Bovinamente a bovina paixão salazaenta de jose mostra a sua força motora .

    De

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  6. Olá António,

    Vou usurpar a caixa de comentários para dar seguimento à saga 'um texto de Lénine por dia, não sabe o bem que lhe fazia'. Desta vez trago o 'Marxismo e Reformismo'. Ferramenta teórica de combate ao reformismo, ao liquidacionismo e ao oportunismo, simples e concisa. Sublinhados meus. Segue:

    "Unlike the anarchists, the Marxists recognise struggle for reforms, i.e., for measures that improve the conditions of the working people without destroying the power of the ruling class. At the same time, however, the Marxists wage a most resolute struggle against the reformists, who, directly or indirectly, restrict the aims and activities of the working class to the winning of reforms. Reformism is bourgeois deception of the workers, who, despite individual improvements, will always remain wage-slaves, as long as there is the domination of capital.

    (...)

    There are reformists in all countries, for everywhere the bourgeoisie seek, in one way or another, to corrupt the workers and turn them into contented slaves who have given up all thought of doing away with slavery. In Russia, the reformists are liquidators, who renounce our past and try to lull the workers with dreams of a new, open, legal party.

    (,,,)


    The liquidator Sedov, summarising the statements of all the liquidators, wrote that of the Marxists’ “three pillars” two are no longer suitable for our agitation. Sedov retained the demand for an eight-hour day, which, theoretically, can be realised as a reform. He deleted, or relegated to the background the very things that go beyond reforms. Consequently, Sedov relapsed into downright opportunism, following the very policy expressed in the formula: the ultimate goal is nothing. When the “ultimate goal” (even in relation to democracy) is pushed further and further away from our agitation, that is reformism."

    De Lénine, ler também 'Sobre os compromissos', Ilusões Constitucionalistas, O Programa Militar da Revolução Proletária, A Guerra de Guerrilhas, As Eleições para a Assembleia Constituinte e a Ditadura do Proletariado, Partido Ilegal e Trabalho Legal, e A Insurreição Armada e a Nossa Tática de José Estaline.

    Cumprimentos

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  7. Olá Argala.

    Obrigado pelo texto, sempre oportuno e que já não lia há bastante tempo. Parto do princípio que não tenha relação com o que eu escrevi (o que não tem qualquer problema).

    Cumprimentos,

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    1. Olá António,

      De facto não tem qualquer relação, uma vez que a luta por reformas no sector da educação e a luta contra o reformismo podem e devem ser concomitantes.

      Estes textos respondem a um debate que a agudização das contradições do capitalismo vai obrigar todos os comunistas a fazer outra vez. O debate é entre a perspetiva reformista e a perspetiva revolucionária.

      Tal como escrevi num outro comentário, a perspetiva reformista teve mais de meio século para provar o que era capaz de fazer. O que se passou com o Partido Comunista da Ucrânia, um partido que tinha 115 mil militantes, demonstra à saciedade as limitações das formas orgânicas, e de programa, dos partidos tradicionais para responder, sequer de forma defensiva, à barbárie capitalista.

      Espero que esteja disponível para fazer este debate.

      Cumprimentos

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  8. Subscrevo as suas palavras, Argala. À luta!

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    1. Argala, ao manicómio e, por favor, trate de escrever comentários que tenham relação com os artigos dos autores do Manifesto.

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  10. É inadmissível que os professores não saibam quantas substituições podem ser feitas num jogo de futebol!

    Deixo algumas sugestões para a PACC do ano que vem:

    Qual a cor das cuecas de CR7?
    Quem foi o vencedor da Última "Casa dos Segredos"?
    Na última telenovela da Globo quem fazia o papel de Marinaide?

    Eu proponho que seja o Duarte Marques a redigir a prova!

    Camarro


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