Crispado Silva

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O homem não era visto nem ouvido há meses, e agora que aparece, surge-nos crispado. Motivo? Indignado com as inusitadas mortes nas urgências? Indignado com a incompetência do governo na Justiça, na Educação? Nada disso. Alguém tocou, mais uma vez – malditos sejam – no pelos vistos muito aborrecido e incómodo tema da ligação de sua excelência ao grupo Espírito Santo. Isso é que é preocupante. Já não o víamos tão exaltado desde a sua associação à SLN e ao BPN do seu amigo Oliveira e Costa. O dito senhor enervou-se, fez triste figura aos microfones e câmaras dos jornalistas, empalideceu e tremeu o queixo, deu-lhe o verbo para a lamentável postura do costume.

Vociferou a palavra “mentira” duas ou três vezes, desdisse o que tinha dito e declarou, com toda a sobranceria e despeito, “nada ter a acrescentar”
Saiu-lhe a tradicional arrogância e o tom de quem, parafraseando Saramago, tem sempre a pretensão de “dar lições”. Lá veio a remissão professoral para o site da presidência, o apontar para a raridade e santidade das suas próprias palavras, a nunca acertada interpretação dos incautos daquilo que um dia sua genialidade disse, porque nunca ninguém é suficientemente inteligente para captar o "verdadeiro alcance" das palavras sábias de Cavaco Silva. Lá reapareceu a assunção fantasiosa do carácter excepcional da sua integridade política, dizendo-se, ou gabando-se, de ser «talvez o único político em Portugal» que tem tudo o que disse «publicado no site da presidência». O homem que, em boa verdade, mais provas tem dado de ser o mais desastrado, o mais diminuído, o mais comprometido, o mais desprestigiante político que o país viu após o 25 de Abril de 1974.

Entre a atrapalhação e o indisfarçável nervosismo, que só veio adensar o já muito espesso “nevoeiro BES-GES”, Cavaco Silva fechou-se em copas face às dúvidas já assumidas pela Comissão de Inquérito, vociferou a palavra “mentira” duas ou três vezes, desdisse o que tinha dito e declarou, com toda a sobranceria e despeito, “nada ter a acrescentar”. É assim que se resolve, com um “chega para lá” institucional, as necessárias e indispensáveis dúvidas que foram lançadas não por um adversário político em campanha eleitoral, mas por esse órgão de soberania que é a Assembleia da República.

Mesmo que o pedido de esclarecimento não tenha ainda chegado pela via formal à tarimba do soberano, a Comissão de Inquérito fica desde já “avisada”. O Rei não sai do palácio. Quem quiser esclarecimentos, que vá consultar as “reais palavras” ao “real édito” colocado no “real site”. E, de preferência, que desapareçam.

12 comentários:

  1. Olá Rafael,

    Venho novamente usurpar o espaço dos comentários para dar seguimento à saga 'um texto de Lénine por dia, não sabe o bem que lhe fazia'. Hoje vamos ler um texto mais descontraído 'Conversa entre um legalista e um anti-liquidacionista'. Neste diálogo escrito por Lénine, o legalista tenta defender um partido legal, em vez de um partido com trabalho legal, num período em que tal apenas podia significar o abandono de posições revolucionárias. O anti-liquidacionista ouve com atenção e faz as perguntas certeiras. A páginas tantas o legalista aceita conciliar trabalho legal com trabalho ilegal, mas ainda não entendeu a diferença. Devemos aproveitar os espaços legais para fazer trabalho revolucionário, e não abandonar trabalho revolucionário para poder ter espaços legais. Diz o anti-liquidacionista:

    "The Cadets have a party that functions legally although it is legally non-existent, not because they have turned the contradictions to account, but because there is nothing revolutionary in the content of their work"

    Uma nota importante. Isto foi escrito num período particular. Poderão haver situações em que para recuar de forma organizada, se tenham que abandonar determinadas formas de luta para manter os espaços legais que permitam que o movimento revolucionário não se desintegre. Mas para um revolucionário, isto é sempre a excepção que confirma a regra. A outra nota importante é que a simples existência de espaços legais gera choques entre os militantes que perguntam: "Que espaços legais temos para fazer trabalho revolucionário?" e outros que perguntam "Que trabalho revolucionário podemos fazer para manter os espaços legais?". Excepto em períodos de distensão, um revolucionário faz normalmente a primeira pergunta.

    De Lénine, ler também Marxismo e Reformismo, 'Sobre os compromissos', Ilusões Constitucionalistas, O Programa Militar da Revolução Proletária, A Guerra de Guerrilhas, As Eleições para a Assembleia Constituinte e a Ditadura do Proletariado, Partido Ilegal e Trabalho Legal, e A Insurreição Armada e a Nossa Tática de José Estaline.

    Cumprimentos

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    1. É inacreditável. O artigo do Ivo Rafael é sobre Cavaco Silva e você traz outro assunto completamente diferente. Haverá por aí algum desarranjo mental?

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  2. Mais um comentário do Argala que não tem relação com o texto.

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  3. Inaceitável esta recusa de contribuir para o circo político!
    Como não ficar indignado se Portugal depende das palavras de Salgado<->Cavaco para definir o seu futuro, e fica privado desse essencial instrumento!

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  4. Excelente texto!
    o soares já avisou cavaco que daqui a 1 ano já não será pr ... e o salgado ainda agora começou a abrir o jogo! andam a tremer só de pensarem que o salgado está a escrever um livro de memórias...!!!

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  5. Saudações,

    Os anónimos querem que eu dê seguimento ao trabalho. Assim seja.
    Hoje vamos ler um texto mais longo, 'O pacifismo burguês e o pacifismo socialista'. A guerra está na natureza do imperialismo. A função dos comunistas não é defender a guerra imperialista, nem a paz imperialista; nem o pacifismo burguês, nem o pacifismo de Kautsky, Turati e Bourderon. Os comunistas não gritam slogans como "paz sim, guerra não", nem choram pela carta da ONU, como faziam aqueles três reformistas. Os comunistas declaram guerra à guerra! A função dos comunistas é transformar a guerra imperialista em guerra civil revolucionária, tal como fez Lénine, aproveitando as contradições inter-imperialistas. Segue um excerto que não pode substituir este texto:

    "At times some try to defend Kautsky and Turati by arguing that, legally, they could no more than “hint” at their opposition to the government, and that the pacifists of this stripe do make such “hints”. The answer to that is, first, that the impossibility of legally speaking the truth is an argument not in favour of concealing the truth, but in favour of setting up an illegal organisation and press that would be free of police surveillance and censorship. Second, that moments occur in history when a socialist is called upon to break with all legality.

    (...)

    There you have a sample of “pure” pacifism, entirely in the spirit of Kautsky, a pacifism approved by an official labour organisation which has nothing in common with Marxism and is composed chiefly of chauvinists. We have before us an outstanding document, deserving the most serious attention, of the political unity of the chauvinists and the “Kautskyites” on a platform of hollow pacifist phrases. In the preceding article we tried to explain the theoretical basis of the unity of ideas of the chauvinists and the pacifists, of the bourgeois and the socialist reformists. Now we see this unity achieved in practice in another imperialist country."

    De Lénine, ler também Conversa entre um legalista e um anti-liquidacionista, Marxismo e Reformismo, 'Sobre os compromissos', Ilusões Constitucionalistas, O Programa Militar da Revolução Proletária, A Guerra de Guerrilhas, As Eleições para a Assembleia Constituinte e a Ditadura do Proletariado, Partido Ilegal e Trabalho Legal, e A Insurreição Armada e a Nossa Tática de José Estaline.

    Cumprimentos

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  6. Uma descrição assertiva do pântano politico em que os servidores do grande capital mergulharam Portugal .

    Isto já lá não vai com palavras e ainda menos com votos com a validade de um dia.

    Só o poder do povo tem competência para varrer esta podridão imunda.

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  7. Camarada Argala.

    Podes fazer o favor de indicar o titulo dos livros onde obténs estas compilações?

    Com textos avulso é mais difícil fazer uma analise completa do pensamento de Lenine.


    Também tenho algumas obras de Lenine publicadas por as edições Avante. Estou interessado em adquirir as que houver mas da forma como estás fazendo não se consegue aprofundar minimamente o contexto em que Lenine apresentou tais ideias.


    Faz-me o favor de quando colocares mais artigos semelhantes indicar os títulos dos livros onde estão publicados.

    Saudações revolucionárias.

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    1. Camarada Carlos Carapeto,

      Eu tenho os antigos três tomos das Edições Avante com as obras escolhidas. Os novos seis tomos devem ter todas as obras que citei com a excepção deste artigo e o "Conversa entre um legalista e um anti-liquidacionista". Só que nem todos os textos das Edições Avante estão online, por isso muitos deles acabo por citar em inglês e estão nos tomos das obras completas.

      Para quem não tenha problemas em ler em inglês. as obras completas de Lénine estão aqui. São 45 volumes, que sendo do domínio público, são dados à estampa por diferentes editoras. Ver aqui. Eu costumo ler online ou imprimir, mas quando vejo alguns tomos em segunda mão a preços baixos, compro. Por exemplo, este artigo de Lénine está no Tomo 23, Progress Publishers, 1964.. no amazon pedem 40 libras pelo livro em segunda mão. Outra coisa que é importante notar é que as obras completas estão por ordem cronológica e estão anotadas.

      Já as obras completas de José Estaline estão aqui. Espero que um dia seja corrigida a injustiça de não estarem em português.

      Abraços revolucionários

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    2. Obrigado camarada Argala por a informação.

      De Lenine tenho alguns livros publicados por as edições Avante, obras de grande utilidade que considero muito atuais nos dias de hoje.

      Sobre Estaline tenho tido acesso a pouca literatura. li de Ludo Martens " Um Outro Olhar Sobre Stalin"

      Grover Furr publicou um livro sobre Estaline julgo já existir uma tradução em Galego que não consigo encontrar.

      http://estoutrasnotaspoliticas.blogspot.pt/2011/02/khrushchev-mentiu-o-libro-de-grover.html


      No site que coloco aí por baixo está um trabalho importantíssimo acerca da Revolução Bolchevique, Estaline e a URSS . É pena ser em Russo. Não domino a escrita Russa o suficiente para poder fazer a tradução.





      http://wiki.istmat.info/%D0%9D%D0%B0%D1%87%D0%B0%D0%BB%D0%BE


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    3. Camarada Carlos Carapeto,

      O link das obras completas de Estaline é este. Na outra resposta ficou mal linkado.

      Ainda não li o livro de Grover Furr, tenho que pôr a leitura em dia. Creio que não há tradução portuguesa. A propósito, a tradução que aí deixei da guerra de guerrilhas é do Ateneu Proletário Galego.

      A tradução portuguesa de 'Um outro olhar sobre Stáline" está online para quem quiser ler e tem um prefácio do camarada Carlos Costa:

      "Depois da morte de Stáline, o revisionista e eticamente degradado Khruchov, no fim do XX Congresso do PCUS, lançou com um verdadeiro golpe a bomba política, ideológica e psicológica, o chamado «Relatório Secreto», que credibilizou todas as mentiras e infâmias lançadas sobre a personalidade, papel histórico e ideologia de Stáline.
      O caminho estava aberto para toda uma linha revisionista no plano ideológico e da política interna e externa, que facilitou a nova ofensiva e agressividade do imperialismo e lançou os fundamentos para o surto de uma classe exploradora, que, com Gorbatchov, Iéltsine e comparsas, levou à derrota final do socialismo na URSS, pela classe que hoje detém o poder de Estado na Rússia, e à consequente desagregação da União Soviética.
      Pelo caminho, a maior parte dos partidos comunistas europeus foram degenerando em partidos sociais-democratas. Digo europeus porque, nos países da América, já muitos tinham degenerado sob a influência do «browderismo» , teoria de conciliação de classes baseada na falsa interpretação da aliança na Segunda Guerra Mundial entre os EUA e a URSS, elaborada e difundida pelo renegado Earl Browder, secretário-geral do PC dos EUA, que levou à dissolução do próprio partido."

      Abraços revolucionários ☭

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    4. P.S. www.hist-socialismo.com/docs/UmOutroOlharStaline.pdf o link ficou partido.

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