De suspeitos a culpados num título do JN

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Todo o português comum que acompanhou e acompanha os inúmeros e intermináveis processos judiciais altamente mediatizados que ao longo dos últimos anos encheram jornais, telejornais e noticiários radiofónicos sabe que a chamada "presunção de inocência" é um dos sacro-santos elementos do chamado "estado de direito", que por cá é verdadeiro estado de direita. Nada contra a presunção de inocência, bem pelo contrário. Um suspeito de determinado crime apenas é culpado quando a acusação consegue demonstrar a sua culpa e um tribunal reconhece essa mesma prova como válida, o que leva à condenação.

Acontece que nem toda a gente tem pela "presunção de inocência" grande respeito. Acontece também que o referido princípio não é de aplicação universal. Nos jornais, por exemplo, a fronteira entre suspeito e culpado, efectivo ou alegado, é coisa muito móvel, pouco rigorosa.

O JN refere ontem, em título de notícia publicada no seu site, que a CIA torturou terroristas da al-Qaeda "até ao ponto da morte". Não me alongando em considerações sobre as práticas de tortura antigas, continuadas e impunes levadas a cabo pela CIA, nem tão pouco sobre essa coisa de se pertencer à al-Qaeda - não é o tema deste post, embora pudesse ser - chamo a vossa atenção para o facto do título do JN condenar os torturados: terroristas, ponto.

O corpo da notícia porém desmente o título. Ora leiam: "A Agência de Informações norte-americana (CIA) torturou suspeitos de pertencerem à rede terrorista al-Qaeda "até ao ponto da morte", afogando-os em banheiras, noticia o Daily Telegraph, antecipando um relatório do senado norte-americano sobre técnicas de interrogatório". Os terroristas do título passam a "suspeitos de pertencerem à rede terrorista al-Qaeda" no parágrafo logo em baixo. Todo o "rigor" do vulgar jornalismo indígena numa pequena notícia que já não impressiona ninguém, não causa sobressalto, não motiva indignação alguma.

Não é semântica, não é excesso de zelo. É apenas e tão só a imagem de uma profissão que se vai degradando, de uma missão de elevadíssima responsabilidade que se vai diluindo. Os jornais do regime são bem a imagem do próprio regime.

18 comentários:

  1. Fiz esse mesmo comentário na notícia. Mas nunca apareceu. Voltei hoje a insistir. Vamos ver se publicam.

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  2. Por mim acho inaceitável que a Al-Qaeda não registe os seus membros no Tribunal Penal Internacional para acabar com esta indefinição entre suspeitos e membros efectivos.
    A identificação dos membros efectivos quando se apresentam às autoridades em explodidos pedaços coloca graves dificuldades técnicas!
    Quanto à relação entre imprensa livre e regime...fiquei um tanto confuso.

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  3. Confuso já não estará jose à beira-mar plantado.Não pela confusão, mas pela ausência do mar, que se recusa por motivos banais de higiene.

    Ele, logo ele, que proclamava o estado de direito que constituía o corpo jurídico do fascismo, sai em defesa dessa coisa do estado de direito que tortura pessoas até à morte num macacado e perene exercício de ocultação do horror do imperialismo e num desprezo pelo mais elementar exercício de cidadania.

    Dir-se-á que o exercício do referido indivíduo remonta ao património ideológico do referido indivíduo, algo que não levanta quaisquer dificuldades técnicas. Mas é um exemplar exemplo do que de pior deixaram os torcionários da inquisição por aqui. Os autos de fé teriam este jose como seu entusiasta e babado espectador , caso o não convidassem como entusiasmante verdugo para a celebração dos ritos e das condenações tão ao gosto de JgMenos/jose.

    Os jornais do regime funcionam para conforto de coisas assim. E para a perpetuação e disseminação destes "sinais civilizacionais" pelos quais jose bate palmas e segrega.

    Confere.

    De

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  4. DE, atreve-te a dizer qualquer coisa do teu pensamento e não essa patética e enfadonha litania do que dizes ser o meu.
    A presunção da existência desse pensamento auiónomo e livre é o inevitável resultado do meu optimismo.

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  5. ?
    Já o disse várias vezes.
    "Familiaridades" com coisas como esta são motivo de um imediato colocar à distância.

    Também por motivos sanitários, em que, neste caso, não incluo o optimismo algo néscio dum colaboracionista em exercício de ocultação de torturas e de "legalidades" próprias das ideologias que admira.

    O "até à morte"das referidas torturas é apenas um pequeno pormenor que jose insiste em esconder no seu palavreado oco, pútrido e senil.

    De

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  6. Mal explicado, hesitante, mas entendido: o "até à morte" é para DE o problema moral da tortura!
    Eu diria que não é senão o seu inevitável risco.
    Direi também, qie a verdade é um direito do colectivo quando a lei o determinar e que cabe à ciência encontrar os meios de a obter sem recorrer a meios primitivos em que não raro se criam recreiam sádicos.

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  7. Há de facto uma coisa que custa (para além do posicionamento ideológico do josé, próximo das forças mais obscurantistas e retrógradas do planeta)

    É a sua dificuldade em compreender o que lhe é dito e a necessidade repetida de lhe explicar o b-a-ba.Cansa mas por vezes é necessário.

    O "até à morte" das referidas torturas foi apenas um ( e não o) pequeno pormenor escondido no palavreado do jose.

    A CIA admitia até aqui o 'waterboarding', que consiste em simular um afogamento despejando água pela cabeça do inquirido.Todavia o revelado vai muito mais longe.
    "Eles não estavam apenas a despejar água pela cabeça ou através de um pano", lê-se na citação que o Daily Telegraph atribui à fonte dos serviços de segurança". Eles estavam a segurá-lo debaixo de água até ao ponto da morte, com um médico presente para garantir que não iam longe demais".

    Ou seja , a questão das mortes não representa o "inevitavel (!) risco das torturas, (como exercício de desculpabilização é um portento). Qualitativamente é um passo adiante.E que passo. Objectivamente é assumido que as técnicas usadas são equiparáveis à dos nazis e não são as cenas delicodoces inspiradas na minimização oficial dos factos.


    De caras e de frente, para até o jose perceber à primeira, acusa-se este de tentar esconder o horror do denunciado, através de expedientes à volta das "inevitabilidades do risco" e do "problema moral da tortura"

    De

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  8. Porque aqui radica outra questão que tem a ver, infelizmente com os deficientes conhecimentos de quem usa a " moral " como argumento.

    Infelizmente para o jose não me sigo pelos sermões de torquemada nem pelas missas de PioXII .

    "O problema moral da tortura" é um non sense.Uma boutade.

    Poderia dizer que "Marx, Engels e Lenine mostraram o vazio das concepções acerca de uma moral eterna, absoluta, válida para todas as classes, todas as épocas e todas as condições e que, por isso mesmo, «não é aplicável nunca e em parte alguma». Nas sociedades divididas em classes antagónicas, a moral foi sempre uma moral de classe, basilarmente assente nas condições da vida social. «Os homens (sublinhou Engels), consciente ou inconscientemente, derivam as suas ideias éticas, em última análise, das relações práticas nas quais é baseada a sua posição de classe – das relações económicas nas quais realizam a produção e a troca».A moral, como as outras superestruturas, tem um desenvolvimento próprio, contínuo e relativamente independente." (A.Cunhal)

    Mas isto provavelmente deixaria Jose à beira dum ataque de nervos.

    Vamos então por um outro caminho.E repetindo

    Moral é aquilo que consensualmente uma determinada comunidade, numa determinada época considera ser um padrão de comportamento exigível, que é como quem diz, o tal conjunto de princípios que aquela sociedade num determinado momento histórico exige aos indivíduos.

    Ética, deriva do grego êthos ,etimologicamente significando morada, caverna, habitação, carácter. É o modo como cada pessoa habita o mundo, Aquilo que a pessoa acha ser um bem. É de facto “aquilo que uma pessoa pensa que deve fazer”, em função de um quadro de princípios que aceita como um bem.
    Sumariamente a moral é de ordem comunitária; a ética de ordem solitária.

    Um exemplo concreto, o de Oscar Wilde.
    Aquele escritor estava a ser honestíssimo consigo próprio quando assumia a sua homossexualidade.Era um homem de carácter,estava a ser eticamente irrepreensível de acordo com o seu quadro de princípios.E no entanto para os outros, de acordo com as regras de conduta daquela sociedade, naquela época concreta era considerado um imoral.

    Parece que para o jose a tortura tem um "problema" (pasme-se) este é de ordem moral e radica (pasme-se de novo) da "minha opinião" sobre o "até à morte"

    Pois é....é uma pena

    De

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  9. Infelizmente o pior,está para vir...

    Atente-se nesta "pérola": "a verdade é um direito do colectivo quando a lei o determinar"

    A verdade perde o seu estatuto de "direito colectivo" se a lei não o determinar? Ou o que acontece à verdade enquanto espera pela determinação da lei? Deixa de ser verdade? Ou deixa de ser colectiva?


    Será que regressámos ao s tempos da inquisição em que era exigida a verdade como direito da seita, determinada pelos sacerdotes da lei em exercício?
    Ou esta absolutização da verdade vai ao encontro da verdade pregada hoje pelos rabis ortodoxos, que proclamam a sua verdade como A Verdade e estipulam que a Lei assim o determina , abrindo todas as portas para todas as justificações de fundamentalistas sem escrúpulos?

    E o colectivo referir-se-á concretamente a quem? Por exemplo ao colectivo dos neo-.nazis que levantam a mão na Ucrânia, ansiosos por escreverem na lei a sacralização da "sua verdade"? ou o das suas vítimas?

    Como é possível alguém escrever tal coisa?

    Que saudades se adivinham dos torcionários aptos a arrancarem a verdade para que o colectivo tenha o direito ao seu quinhão daquela.

    Estamos a caminho do "admirável mundo novo" ?

    Onde param as tais "liberdades" individuais pregadas pela corte neoliberal que debita o credo da ordem, mas que agora exige o direito de violar um dos mais básicos elementos de defesa em qualquer estado dito de direito, que é o direito de permanecer calado, mesmo que tal contribua para a sua condenação?

    Saudades dos tempos do fascismo? Do nazismo? Em que "a verdade" era um direito que os torturadores tinham todo o direito de extorquir?

    E será que a cegueira ou a firme convicção ideológica proto-fascista não permitem ver que o socorrer-se da ciência não torna menos escabroso este desejo de extrair "a verdade " em nome de valores colectivos ( que colectivos?) como se se apagasse neste princípio de século uns bons milénios do rumo da humanidade e se se cumprisse o sonho dos torcionários de criar um machado que de facto corte a raiz ao pensamento?

    É que o apuramento da "verdade dos factos" já hoje passa por muitos instrumentos, muitos deles derivados da Ciência pura.
    Sem que se tenha que socorrer a processos repugnantes de tortura, de violação das condições básicas da identidade do ser.

    De

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  10. Ah e finalmente, esta espantosa vontade de perdoar, esquecer, esconder, branquear os responsáveis políticos pela tortura, em nome de alguns "torturadores", sádicos , culpando a mão que instrumenta em vez de responsabilizar quem manda.

    De

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  11. Serviçal criatura de um dos mais abomináveis regimes torturadores da História - os soviéticos torturavam para garantir a admissão da mentira, da falsa culpa - vem armada em moralista condenar a tortura que visa obter a verdade sobre acções que ameaçam quem o torturador tem o dever de defender.
    A tortura será imoral e bárbara, mas só a ciência a poderá evitar, garantindo por outros meios melhores resultados, pois se houver ameaça de grande mal, na tentativa de o evitar, sempre ela será um meio usado.
    O resto é treta!

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  12. O grosso da noticia não é divulgado, aliás é "convenientemente" abafada nas concomitâncias (adornos) da desinformação ao serviço do poder dominante.

    Talvez nunca se venha a saber o numero de mortes sem julgamento, com culpas ou inocentes provocadas por a alegada guerra contra o terrorismo.

    Quantas serão as vitimas barbaramente torturadas e assassinadas nas inúmeras prisões secretas espalhadas por todo o planeta?


    Quantos seres humanos foram mortos e deitados ao mar nos navios prisões que sulcam os mares de todo o mundo?

    Quantas cidadãos foram raptados e desapareceram sem deixar rasto ?


    Não temos que fazer cálculos. Basta estar a par daquilo que aconteceu em Abbu Graib, em Guantánamo, em Bagram, nas inúmeras prisões secretas aqui nesta Europa " livre e democrática respeitadora dos direitos humanos".

    Outros cidadãos que foram entregues a regimes déspotas para serem "livremente" torturados como aconteceu com centenas de opositores do Afeganistão entregues ao ditador tirano do Uzbequistão Karimov.


    Por isso sinto repulsa daquelas pessoas que com ar sério e sereno falam dos direitos humanos.

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  13. Tudo dito.

    Há quem abomine a tortura, assuma ela as formas que assumir.

    Há quem a abrace, com mais ou menos floreados, com mais ou menos cabotinice, com ou mais ou menos patéticas demonstrações de ignorância bacoca e boçal,,com mais ou menos trejeitos de serventuário fiel, ou com mais ou menos fugas para o além, tentando encontrar em outrém (qualquer que seja) a justificação para a sua própria bestialidade e barbaridade.

    O que fica também é esta defesa proto-fascista de um qualquer carrasco (islâmico, cristão,judeu ou de qualquer outro credo ou seita), tão patente nesta frase tão comesinha em que presta a devida homenagem a quem inveja o modo de ser ou de estar:
    "o torturador tem o dever de defender."

    Jose (JgMenos) assume o seu perfil de vulgar torcionário.Um repelente e vulgar torcionário.

    De

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  14. A patetice ao serviço dos extremismos sem limites morais ou humanitários!

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  15. Uma incompleta mas de certa forma adequada auto-definição do coitado ignorante deste "jose", defensor da tortura e do métier de carrasco.

    Sem limites morais nem humanitários ...e a uivar pelo dever do torturador

    De

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  16. (ficará para a próxima essa questão dos "limites morais", mas agora francamente não me apetece.
    Prevalece a repugnância por coisas assim)

    De

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  17. A ruminação patética não passa disso mesmo.

    O panegírico prestado pelo jose aos que decapitam ou aos que torturam em Guantánamo é demasiado esclarecedor para.

    De facto...repugnante.

    De

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