Aprender e ensinar

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ontem, a Escola Pública transformou-se num circo triste, como são - para mim - quase todos os circos. Há qualquer coisa nos circos que me deixa melancólico e agoniado. Não sei se é do chão em terra, da tenda em cima do descampado, da nobreza de uma arte que se faz hoje com fatos gastos, coçados, entre apresentadores que se transformam em malabaristas e vão a correr vestir o fato para caminhar no arame.

Ontem, Nuno Crato optou por transformar os professores em alunos; miúdos que (não) faziam uma prova de escolha múltipla, com cálculos básicos, perguntas humilhantes para quem estudou para ensinar.

Já no tempo da nada saudosa Milu Rodrigues escrevi sobre os professores. E reitero tudo: devo ter tido muita sorte nos professores que encontrei na Escola Pública. Da esmagadora maioria guardo óptimas recordações, de outros saudades mesmo, das discussões, dos debates que a matéria proporcionava e do que aprendi extra-programas.

Nunca fui um bom aluno. Ou melhor, fui até ao 6.º ano, mais coisa menos coisa. Depois, chateavam-me os programas e o que tinha de estudar, por obrigação. Valiam-me os olhos abertos nas aulas, que levei sempre com muita tranquilidade.

Não me imagino na pele de um professor vigilante no dia de ontem. Mas que merda é esta? Fui quase sempre delegado de turma e nem aí me atrevi a ser vigilante, nem bufo, nem outra merda qualquer. Nem quando o Hélder enfiou um banano ao Pedro, à porta do Bloco A, que lhe partiu os óculos. E a directora de turma queria que eu dissesse o que se tinha passado, mesmo depois de o Pedro ter-se recusado a relatar. O que ficava à porta do Bloco A, morria à porta do Bloco A.

Na primária, à lei da reguada, a D. Arminda fazia valer a sua pedagogia. Claro que hoje não imagino a minha filha a levar uma reguada por cada erro num ditado, ou a ficar sem intervalo por esquecer-se de quantos são 7x2, como aconteceu comigo. 7x2, caramba. Que burro.

Na educação como noutras áreas, o que este governo faz é retroceder. A introdução dos exames no ensino básico, o stress dos miúdos que deveriam estar a aprender o que o nome indica: o básico, para depois poderem vir a aprender tudo o que lhes der na cabeça, dentro e fora os programas, felizmente.

Antes de ser ministro, Crato era um fofinho que até ia à Antena 3 falar com o Alvim - não encontro no arquivo do programa - ao final da tarde. E ao Opinião Pública da SIC Notícias. Transformou-se numa besta, básica, basicamente. Polícias do Corpo de Intervenção nas escolas, em frente à porta, a fazer lembrar a GNR nas escadarias do fascismo, em Coimbra, em 1969.

Dos professores que conheço, nenhum merece isso. Mas, lá está, devo ter tido muita sorte.

Menos sorte teve o José Manuel Fernandes que, ontem, no Opinião Pública comparou professores e médicos e os exames que têm de fazer, os anos de aprendizagem. Comparar professores e médicos só na cabeça daquele senhor.

De qualquer forma, importaria perguntar, e eu fi-lo, através do Twitter, que exames fez José Manuel Fernandes para ser jornalista? E para ser director do Público? Quais foram os pontos concretos constantes no exame? As vendas não foram, com certeza. Nem o inglês, como pode ver-se na foto, quando o então ilustre director do Público apresentava um novo conceito: os think thanks, em lugar dos think tanks*, que estavam então muito na moda.

E não, não tive resposta.

*A ligação demora um bocadinho a abrir.

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